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quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Amanhã Você Vai Entender - Rebecca Stead


A jovem Miranda Sinclair precisa desvendar um enigma na Nova York do final da década de 1970. Em Amanhã você vai entender, seu melhor amigo é agredido na rua, um estranho pode ter invadido a casa dela e uma série de bilhetes, que ela não compreende nem tampouco sabe quem escreve, alerta sobre a morte de alguém. Alguém que ela poderá ajudar a salvar. À medida que as mensagens chegam, Miranda percebe que quem as escreve sabe de detalhes de sua vida que ninguém deveria saber. E, conforme as peças do quebra-cabeça se encaixam, ela finalmente percebe que a resposta sempre esteve ali, bem em sua frente - mas o tempo é ardiloso: guarda hoje momentos que só amanhã você vai entender. Amanhã você vai entender, segundo livro de Rebecca Stead, recebeu a Medalha Newbery, prêmio da American Library Association destinado às mais importantes contribuições norte-americanas à literatura jovem.

Amanhã Você Vai Entender conta sobre Miranda, uma garota de 12 anos que tem o seu mundo abalado quando seu melhor amigo – Sal – é atacado no caminho de volta para o condomínio que os dois moram e estranhamente deixa de falar com Miranda. Para piorar, a garota tem seu apartamento invadido por um estranho que encontra a chave reserva e leva consigo, deixando apenas um bilhete. Apesar de ser assustador pensar em algo desse tipo, o invasor não mexe em nada dentro da casa delas, aparentemente. Seu bilhete é ainda mais peculiar: diz que a pessoa está vindo para salvar a ela e mais alguém, amado por Miranda, além de pedir para que ela faça uma carta.
Em meio a esse mistério, o leitor vai compreendendo a trama que é infantojuvenil e percebe que o livro tem como o seu principal tema o tempo. É muito interessante o modo como os capítulos vão e vêm no tempo de Miranda, às vezes antes da agressão ao Sal, outras depois. São muito bem retratadas as dúvidas dos personagens e bem esclarecidas, na medida do possível, é claro, pois o tempo é um assunto bem discutível.
 “O tempo é como um anel todo cravejado de brilhantes – sem começo nem fim; cada pedra, um momento.”
Outros bilhetes chegam e parecem saber muito sobre a vida de Miranda, até mesmo aquilo que ainda vai acontecer, como vemos a partir das “Três Provas” que o misterioso remetente faz para a garota acreditar nele e fazer o que ele lhe pede. Aos poucos percebemos que o livro – narrado em primeira pessoa por Miranda – é a carta que ele pediu para que ela fizesse, o que se torna especial à medida que tudo vai se esclarecendo.
É um livro rápido de se ler, com as suas 224 páginas, cheias de capítulos e com uma letra não tão pequena. A Editora Intrínseca caprichou na capa e certamente vendeu muitos exemplares por esse motivo. Tanto a capa brasileira quanto a americana retrata o bairro onde Miranda mora, com todos os seus pontos bem descritos no decorrer da estória, funcionando como o ponto chave onde as coisas acontecem.
O final é bem vago em algumas questões, mas talvez seja porque o tempo é um mistério para todos nós e provavelmente seja melhor continuarmos sem entendê-lo, deixando sempre para o amanhã.
Destaque para a influência que Rebecca Stead teve ao escrever este livro. “Uma Dobra no Tempo” de Madeleine L’Engle, lançado há mais de 50 anos, foi extremamente motivador para a autora, que se mostra grata após o término de seu livro. Uma Dobra no Tempo é um clássico americano muito reconhecido, além de participar da série Lost em um episódio, ser um dos livros prediletos de Suzanne Collins (autora de Jogos Vorazes), chegando a ser citado em Extraordinário, entre outras aparições em diversos cantos da cultura que está a nossa disposição. Depois dessa, vale ou não vale a pena dar uma procurada neste livro e lê-lo?

                                                 

domingo, 19 de janeiro de 2014

O Pálacio de Inverno - John Boyne


O Pálacio de Inverno é com certeza um livro para quem aprecia eventos históricos e gosta de ler sobre memórias. O livro se passa em dois momentos diferentes da vida de Geórgui Jachmenev; no passado, na Rússia, Jachmenev era um guarda jovem do czar encarregado de cuidar do czarevich (herdeiro) Alexei dentro do Palácio de inverno o outro momento é Jachmenev residindo na Inglaterra já na velhice relembrando de sua vida e dos últimos momentos ao lado de sua esposa Zoia que possui um câncer em estado terminal. 

Por esse parecer entendemos que a história de Géorgui Jacmenev não passa de memórias de um ex serviçal da nobreza aristocrata da Rússia, mas como aprendemos nas aulas de história, Alexei era o filho do último czar russo o Czar Nicolau II que após a revolução russa ele e sua família foram executados pelos revolucionários. 

Embrenhando-se dentro da história real da família do último czar, John Boyne puxa e imenda fios soltos em relações a teorias e pedaços desconexos da história, colocando Géorgui como um membro no corpo servil do Palácio de Inverno, o autor ganha o poder de modelar e reconstruir a personalidade daquela família da mais alta realeza e importância história em plena a revolução russa e suas consequência. 

A ousadia do autor não para por aqui, Boyne além de inserir um romance dentro de um momento histórico real ele abre brecha para algumas das teorias de conspiração mais intrigantes envolvendo da dinastia Romanov; a possibilidade do desfecho da família real não ter sido como o contado pelos revolucionários, mas sim havendo um desfecho alternativo .A relações de Jacmenev com a família do czar acaba indo além de suas obrigações, fazendo com que ele mude o ruma da história dessa família. 


Enquanto a narração intercala entre a juventude de Géorgui e os anos de casado, dos últimos para o primeiro, essa narrativa que faz o papel de futuro, se afasta desse voltando aos poucos ao passado e se encontrando com o principal ocorrido na vida do protagonista, depois disso o escritor nos joga novamente na atualidade, agora muito mais apurado por saber cada linha da história do protagonista o leitor se sente mais "dentro da história". Alerto ao fato dessa ser uma das linhas narrativas mais diferentes que vi, e diferente dos livros em que nos perdemos entre o antes e o agora, ao ler o Palácio de Inverno sabemos exatamente em qual momento da vida de Jacmenev estamos.

A única critica que tenho em relação ao livro está na edição brasileira. O livro originalmente se chama "The House of Special Purpose" que pode ser livremente traduzido para "A Casa para Propósitos Especiais", acredito que esse teria sido o titulo mais apropriado, e essa "casa" só viria a ter seu propósito revelado ao final do livro. Entendo a escolha da editora Companhia das Letras, já que boa parte da história se passa no Palácio de Inverno.

Acredito que ultrapassar essa barreira entre pré-história e sensações pode estimula-lo a querer ler, entretanto ultrapassar essa barreira e cair diretamente no enredo pode desconfigurar a experiência única que se pode ter lendo esse livro, há diversas mensagens que Jacmenev quer passar para o leitor através de suas memórias pessoais então deixarei que ele mesmo o faça sem adiantar nem um evento dessa obra indicadíssima. 

Incarceron - Catherine Fisher


Imagine uma prisão tão grande e tão vasta, a ponto de conter corredores e florestas, cidades e mares. Imagine um prisioneiro sem memória, que acredita firmemente ter nascido no Exterior, mesmo que a prisão esteja selada há séculos e que apenas um homem, em cuja história se misturam realidade e lenda, tenha dela conseguido escapar. Agora, imagine uma garota vivendo em um palácio do século XVII movido por computadores, onde o tempo parece ter sido esquecido. Filha do Guardião, está condenada a aceitar um casamento arranjado, cujos segredos a aprisionam em uma rede de conspirações e assassinatos, da qual ela deseja desesperadamente fugir. Um está dentro. A outra, fora. Entretanto, os dois estão aprisionados. Conseguirão enfim se encontrar? Parte fantasia, parte distopia, Incarceron reserva ao leitor a emocionante aventura de Finn e Claudia, dois jovens que desejam, a qualquer custo, destruir a barreira que os separa da liberdade.

  Um livro repleto de reviravoltas e de momentos de tirar o folego, Incarceron conta a estória de Finn, preso dentro de Incarceron e conhecido como Aquele que vê estrelas, e Claudia, a filha do guardião e que vive no Exterior. O livro é contado na perspectiva desses dois personagens o que cria um ambiente incrível já que podemos ver o interior e o exterior ao mesmo tempo.

  Incarceron é uma prisão gigante que foi criada para guardar a escória do mundo depois dos tempos de guerra. Os fundadores da prisão acreditavam originalmente que Incarceron seria um paraíso, um local para abrigar todas as maças podres da sociedade e ajuda-los a se tornarem pessoas melhores. Junto com os prisioneiros mandados para lá foram os Sapientes, mestres que possuem uma extrema inteligencia e que deveriam ajudar os prisioneiros em suas jornadas para se tornarem pessoas melhores. Porém algo dá errado nesse experimento e a prisão passa a virar um completo inferno que é mantida em segredo e que para a sociedade que vive no Exterior, aqueles que vivem presos na Era, é uma utopia desejável. Dentro dela os prisioneiros começaram morrer de fome e a carnificina é iniciada. 
  A prisão passa a ser um personagem ativo no livro já que ela é viva e considerada uma tirana, que dá vida a prisioneiros e meio homens e a animais grotescos, e que possuí vontades e medos. Ninguém, fora o guardião, sabe exatamente a localização de Incarceron e é de conhecimento geral da população que vive na Era que ninguém entra e ninguém sai de lá. E é de conhecimento geral de todos os prisioneiros que um homem chamado Sapphique já conseguiu romper essa barreira e abandonar Incarceron. 

"Foi decidido no inicio que a localização de Incarceron deveria ser de conhecimento apenas do Guardião. Todos os criminosos, indesejáveis, extremistas políticos, degenerados, lunáticos, seriam transportados para lá. O portão seria selado, e o Experimento começaria. Era vital que nada perturbasse o delicado equilíbrio de programação de Incarceron, que proveria todo o necessário- educação, dieta balanceada, exercício, bem-estar espiritual e trabalho- para criar um paraíso.
Cento e cinquenta anos se passaram. O guardião relata que o progresso é excelente"

 Fora de Incarceron temos o mundo preso ao protocolo da  Era, um local onde todos vivem uma mentira para se manter a "paz". Um mundo de castelos frequentado por reis, rainhas, intrigas e assassinatos. Um mundo onde a tecnologia está presente em todos os lugares, para criar uma representação perfeita da Era, porem a mesma é proibida para uso pessoal. 

"Escolheremos uma Era do passado e a recriaremos. Construiremos um mundo livre da ansiedade da mudança! Será o Paraíso" 

  Vivendo nesse mundo de mentiras temos Claudia, filha do Guardião, que está prestes a casar com o filho da rainha. Um casamento arranjado que seu pai cuidou pessoalmente de acertar. Claudia originalmente iria se casar com o príncipe Giles mas após sua morte suspeita a moça passa a ser prometia ao seu meio irmão, príncipe Caspar. Claudia suspeita que a madrasta de Giles, a rainha, tenha mandando mata-lo para que seu filho legitimo pudesse assumir a coroa. 

  Vivendo em Incarceron temos Finn, aquele que vê estrelas, o que tem visões, aquele que acredita ter vindo do exterior. O sapiente Gildas acredita que Finn é a chave para que eles possam fugir da prisão assim como Sapphique fez anos atrás, e movido por essa fé eles partem em uma missão de fuga após encontrarem um objeto misterioso que pode abrir portas, literalmente. 

  A estória dos dois se unem após Claudia invadir o escritório de seu pai e roubar uma chave peculiar. Após esse acontecimento, Claudia e Finn começam a se comunicar pela chave e começam a conspirar para tirar Finn e seus amigos da cadeia. 


"Em estátuas antigas, a Justiça sempre foi cega. Mas e se ela puder ver, ver tudo, e seu Olho for frio e sem Misericórdia? Quem estaria a salvo de tal olhar?

Ano a ano, Incarceron estreitou seu domínio. Transformou em um inferno o que deveria ser o Paraíso. 

O Portão está trancado; aqueles no Exterior não podem escutar nosso gritos."
  Logo no primeiro capitulo o livro me prendeu de uma maneira que me assustou, a reviravolta que acontece logo no começo me fez criar uma expectativa muito grande em cima do livro. Durante toda a história fui me surpreendendo mais e mais com todas as informações e detalhes que a autora criou. Catherine, a autora, descreve os cenários com uma tamanha precisão que me fez imaginar um filme passando na minha mente.


  O livro é repleto de ação e aventura e com situações que me fizeram ficar encarando a página até eu aceitar que aquilo realmente estava acontecendo. Do começo ao fim as reviravoltas não param de acontecer o que é um ponto incrível do livro. Ao começo de cada capitulo temos citações de canções, decretos, cartas... que nos fazem entender mais a estória e entrar de cabeça nela. Catherine escreveu uma distopia criando dois novos mundos completos e com personagens muito bem construídos que me fizeram torcer e desejar que nada de ruim acontecesse a eles.


  O final do livro me decepcionou, talvez por eu ter criado uma expectativa muito grande, eu até entendo o gancho que era necessário para o próximo livro mas na minha opinião ele poderia ter sido feito de uma maneira diferente. Mesmo assim eu estou muito ansioso para o próximo livro, intitulado "Sapphique"


"Apenas o homem que conheceu a liberdade pode definir sua prisão. "

sábado, 19 de outubro de 2013

Ratos - Gordon Reece


Shelley e a mãe foram maltratadas a vida inteira. Elas têm consciência disso, mas não sabem reagir — são como ratos, estão sempre entocadas e coagidas. Shelley, vítima de um longo período de bullying que culminou em um violento atentado, não frequenta a escola. Esteve perto da morte, e as cicatrizes em seu rosto a lembram disso. Ainda se refazendo do ataque e se recuperando do humilhante divórcio dos pais, ela e a mãe vivem refugiadas em um chalé afastado da cidade. Confiantes de que o pesadelo acabou elas enfim se sentem confortáveis, entre livros, instrumentos musicais e canecas de chocolate quente junto à lareira. Mas, na noite em que Shelley completa dezesseis anos, um estranho invade a tranquilidade das duas e um sentimento é despertado na menina. Os acontecimentos que se seguem instauram o caos em tudo o que pensam e sentem em relação a elas mesmas e ao mundo que sempre as castigou. Até mesmo os ratos têm um limite.

Ratos (lançado em 2011 pela Intrínseca) é um livro narrado em primeira pessoa por Shelley Rivers, uma garota de 16 anos, que já passou por diversos maus bocados. Porém o pior deles ainda está por vir.
Shelley sempre foi uma criança gordinha, mas isso nunca havia sido um problema. Tinha três grandes melhores amigas, Teresa, Emma e Jane, que a fazia muito feliz. Tinha sua vida estruturada em uma família que a completava: seus pais viviam em um casamento invejável.
Assim como a vida real, passamos por fases serenas e felizes em nossas vidas, até que uma coisa comece a dar errado e então tudo dê. Coisas ruins costumam vir todas de uma vez.
A escola já não era mais tão agradável. Suas amigas estavam diferentes, e não era para melhor.

“Por volta dos catorze anos, elas começaram a mudar. E eu, não.”

As mudanças foram físicas e comportamentais. As garotas trocaram suas prioridades e, ao perceberem que Shelley se mantinha a mesma, iniciaram uma série de ações contra a pobre menina. O bullying, inicialmente verbal, alcança proporções devastadoras à Shelley, principalmente quando passa a ser físico. Simultaneamente a esses ataques, seus pais se divorciam, e então Shelley se vê perdida no mundo.

“Nossa aparência afeta nossa personalidade? Ou é nossa personalidade que afeta nossa aparência? Um gato sempre parece um gato? Um rato sempre parece um rato?”

Shelley e sua mãe eram como ratos. Elas sempre procuravam se manter afastadas de brigas, sendo totalmente coadjuvantes de suas próprias vidas. O pai de Shelley some no mundo. Depois do Bullying chegar a gota d’água, a ponto de mandar uma Shelley desacordada para o hospital, Elizabeth Rivers – a mãe – toma a atitude de ir morar com sua filha em um local afastado.
Lá, elas se sentem seguras e podem viver a vida insignificante que acham que estão fadadas a ter. Porém, na noite do 16° aniversário de Shelley, um homem invade a propriedade delas e a partir daí ratos e gatos se confundem.
A estória é muito impactante no início e muito bem escrita por Gordon Reece. Em poucas páginas o leitor já se encontra envolvido na trama, e indignado com o azar de Shelley e Elizabeth. É comovente. Os auges do enredo de Ratos são muito bem escritos. O final é morno, mas a leitura até lá vale a pena.
Ao pesquisar sobre outros livros desse autor lançados aqui no Brasil, não encontrei nenhum outro! É uma pena e acho muito difícil ser lançado ainda, pois Gordon Reece morreu há 12 anos e não tem nenhum outro título marcante que poderia interessar a Intrínseca, em minha opinião. Tive a grande surpresa de ver que esse autor britânico colaborou intensamente na ascensão de Margaret Thatcher ao poder, quando ela ainda era uma candidata. Depois disso, ele se tornou conselheiro dela e até aparece no filme “A Dama de Ferro”.
Finalizando, Ratos é um livro forte, considerado de Psicologia e Conduta, que deixa uma mensagem de uma garota que finalmente começa a se conhecer e ver que é ela quem escolhe se é rato ou gato, apenas ela e mais ninguém.


“Talvez aquilo que não conseguimos compartilhar com os outros seja o que realmente define quem somos.”

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Espíritos de Gelo - Raphael Draccon

Espíritos de Gelo é um livro do brasileiro Raphael Draccon, muito conhecido por sua trilogia Dragões de Éter. A intenção dele não era lançá-lo em seu nome, na verdade, escreveu Espíritos de Gelo para um projeto de uma editora de Portugal, no qual tinha a proposta de reunir mitos urbanos. A ideia era que jovens autores participassem. Eis que é chamado, então, Raphael Draccon.
Deu tão certo que ele foi lançado aqui no Brasil pela Editora LeYa, com mais de uma edição. Pode ser classificado como um livro, mas não é errado dizer que se trata de um conto ou uma lenda urbana, afinal possui apenas 170 páginas repicadas em muitos capítulos.
A trama começa com um homem acordando em uma banheira, sangrando e com muita dor, cercado por três outros caras que são narrados petulantemente pelo pobre refém, que salpica a narrativa em primeira pessoa com uma linguagem divertida para alguém que está sendo martirizado. São feitos diversos tipos de tortura até que ele descubra que, para que aquilo termine, ele deveria se lembrar como havia parado ali.
 - O fato é que você apareceu desmaiado, com um rasgo no abdômen, dentro de uma banheira de gelo... Nós precisamos que você se lembre do porquê.
A partir daí ele inicia uma alternância entre presente e passado em busca da razão que o trouxera àquelas circunstâncias.
O livro é bastante forte e pesado, com traços diferentes de sexo e violência pipocados com alguns palavrões, completamente diferente de Dragões de Éter ou Fios de Prata do mesmo autor. Porém é um diferente bom, pois mostra uma variedade de estilos e prova que Raphael Draccon tem potencial para ir além da fantasia infanto juvenil.

O início faz com que a leitura seja bem rápida por conta da curiosidade de saber as razões para aqueles acontecimentos, até que se chegue à metade e as coisas desacelerem um pouco. Apesar disso, o final é ótimo e nos faz pensar sobre até onde o ser humano é capaz de ir para mostrar superioridade aos outros. Limites físicos e psíquicos, indignação e vingança são alguns dos temas abordados em Espíritos de Gelo, um livro com o título justificadíssimo no desfecho do enredo e muito bem aplicado.

domingo, 22 de setembro de 2013

Sangue no Verão - Mons Kallentoft




É o verão mais quente de todos os tempos na província de Östergötland, no centro da Suécia. A cidade de Linköping sofre com uma bolha de calor, e nas florestas próximas eclodem os piores incêndios jamais vistos na área. Numa manhã, bem cedo, uma garota de catorze anos, é encontrada nua e ensanguentada, no maior parque da cidade. A jovem não se lembra de nada e não existem muitas pistas no local para a inspetora Malin Fors e seu colega Zeke seguirem. Mas quem foi que telefonou e contou onde iriam encontrar a garota e o que, realmente, aconteceu com ela?
Malin, que tem uma filha mais ou menos na mesma idade da jovem, fica muito consternada com o caso. Ao mesmo tempo, outra garota é dada como desaparecida pelos pais e, logo a seguir, faz-se uma nova descoberta numa praia fluvial, fora da cidade. O verão mais quente se transformará, em breve, num verdadeiro inferno.


Mons Kallentoft segue a sua série de estações com Malin Fors como protagonista. A cidade é a mesma, mas Linköping está com uma temperatura totalmente diferente da que encontramos no primeiro livro: estamos no verão. É muito difícil acreditar que, há 6 meses atrás, estava um inverno como nunca tinha sido visto e, agora, o verão mais quente de todos os tempos. Isso pode deixar muita gente insatisfeita, mas é este o ambiente que encontramos ao ler Sangue no Verão.
Inicialmente, devo dizer que o livro em muito me desapontou. Talvez porque eu gostei demais do primeiro, talvez porque o livro é fraco em excesso mesmo, ou até por conta da editora, mas eu não gostei.
Bem, a narrativa que tanto chama atenção no Inverno, se torna mais que maçante no decorrer do Verão, tornando a tarefa de terminar o livro muito cansativa. As comparações devem ser feitas. No Inverno, os traços feitos indicando o frio absurdo deram muito certo, gelando até mesmo o leitor. Porém, o calor que é descrito nesse outro livro é extremamente forçado. Os únicos pontos positivos da narrativa é que Mons dá, novamente, voz ao morto, fazendo com que isso se torne uma marca dele, já que faz com precisão; além disso, as reflexões feitas pelos personagens continuam atingindo o leitor em cheio.
[...] E, então, comecei a entender a entender que quem gritava era eu. Ficou tudo escuro aqui embaixo. Nenhuma dor, mas escuro e vazio. Dois morreram. Um perdeu as pernas. E havia eu. Não me importaria de ter trocado com outros.
O enredo que se forma no início do livro é muito empolgante. Diversas alternativas para o assassino são expostas, o que leva a contradições até aquele que observa os mínimos detalhes em busca da solução do caso. Só Malin para resolver este caso. Porém, o final é desapontador. Com diversas opções, Mons rende-se ao clichê policial.
Eu comentei sobre a editora e como ela contribuiu para que o livro fosse, para mim, um fiasco. A capa é linda, disso não há o que falar. Porém, nas abas do livro, onde se encontra mais um resuminho do enredo da trama em si, está um MEGA SPOILER, que a princípio você acha que é normal. Entretanto, você vai lendo, esperando que tudo o que foi dito na aba se concretize e o livro se inicie, de fato. Só que isso demora mais e mais, só acontecendo no final do livro mesmo. O que é descrito na aba só vem a acontecer quando falta menos de 50 páginas para a última palavra, ou seja, há pouca novidade para quem gosta de ser surpreendido.


Sangue no Verão não exige que o leitor tenha lido Sangue no Inverno, pois não há nenhuma relação que influencie a trama, exceto os personagens e a cidade em si. O livro também não nos dá a vontade de acompanhar as próximas estações, Outono e Primavera, mas, se você leu e gostou de Sangue no Inverno, vale dar uma chance.
Assim, espero que a série volte com a pegada que tornou esse autor um dos meus prediletos e que a editora colabore. Talvez Sangue no Outono ajude a decidir se Mons é mesmo um autor que deve ser consagrado, ou se apenas acertou em cheio em um título. Logo, logo a resenha deste que será o terceiro livro da série, já lançado no Brasil.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Sangue no Inverno - Mons Kallentoft


É o inverno mais frio dos últimos tempos. Perto de Linköping, no coração da Suécia, um homem é encontrado morto, pendurado numa árvore. O estado do corpo faz lembrar os rituais de uma antiga religião viking, em que, justamente nessa época do ano, se ofereciam animais e seres humanos aos deuses em troca de felicidade e bem-estar. Mas os tempos são outros. Terá sido mesmo uma oferenda ou tão somente um crime com requintes de crueldade?
Lá do alto, sob as estrelas do céu, uma voz se faz ouvir. A detetive Malin Fors é a única capaz de percebê-la; uma presença que acompanhará de perto seus esforços para reconstruir o crime. Com sua sensibilidade aguçada e o apoio de Zeke, seu parceiro nas investigações, Malin terá de buscar as pistas encobertas pela neve. Sua única certeza é de que o achado irá abalar a vida tranquila da cidade e trazer de volta terríveis segredos há muito escondidos...

Sangue no Inverno é um livro muito diferente dos romances policiais que leio. O autor sueco, Mons Kallentoft, dá voz ao morto de uma forma brilhante. O livro já se inicia com o assassinato de Bengt Andersson. Também chamado de Gandula, Bengt era extremamente sozinho no mundo e apresentava vestígios de insanidade mental, um sujeito digno de pena pela tristeza em abundância que sentia. A morte chega para ele de um jeito curioso, principalmente se tratando de uma cidade tranquila como Linköping, que desperta uma pulga atrás da orelha da polícia local: é enforcado em uma floresta, com alguns cortes pelo corpo, no auge do inverno.


O leitor é levado aos confins da alma de Bengt, que, logo após morrer, já inicia seu discurso e sua reflexão sobre a vida que levou. Essas são as partes mais valiosas do livro. É maravilhoso ouvir o que a vítima diz de tudo aquilo. Ainda mais sendo o Bengt. A inocência, a tristeza e a paciência do personagem fazem com que o leitor anseie para que a fonte do livro fique itálica e que o Gandula assuma a narrativa. São flashes muito bons de ler e que por serem menos frequentes do que a narração em terceira pessoa normal do livro, costumam ser curtos. Porém, a vontade que dá é de reler umas 3 vezes o pequeno trecho de Bengt, tentando desvendar os mistérios de sua vida que ele deixa no ar, tentando juntar as pontas que ele levanta tão de leve.

É claro que doeu. É claro que tive medo. É claro que tentei fugir. Mas ainda assim, bem dentro de mim, eu sabia que já tinha vivido tudo; satisfeito não estava, mas cansado, cansado de me movimentar em círculos, em volta daquilo que me era negado, que eu, no entanto, lá bem no fundo, desejava ter, queria participar Os movimentos das pessoas. Jamais meus movimentos.

E então, a detetive Malin Fors assume o caso com uma equipe muito eficiente. Seu parceiro, Zack, está presente em praticamente todas as investigações que fazem, e, juntos, vão desvendando a trama.
Além de uma excelente detetive, Malin separou-se de Janne, o ex-marido, e vive com a filha Tove, fruto do casamento conturbado entre as duas figuras. A relação deles é respingada de amor e ódio.
É legal ver Malin representando bastante a força feminina nos romances policiais, que costumam ser protagonizados por detetives homens. A constante suspeita que Malin tem de todos os envolvidos e inteligência ajudam muito a resolver o caso.

Todas essas pessoas que olham para o mundo através de pequenas brechas nas portas, de que elas têm medo?

Sangue no Inverno é o primeiro livro da “série Malin Fors”, que percorre as 4 estações. Isso mesmo: Sangue no Inverno, Sangue no Verão, Sangue no Outono e Sangue na Primavera. Assim, o autor é categórico ao detalhar o clima e o ambiente ao redor de seus personagens. No Inverno, por se tratar da Suécia, país bastante gelado, deu muito certo. As descrições da neve e do frio que faz não ficam cansativas e colaboram com a frieza de personagens que vão surgindo com as investigações. É uma combinação perfeita. Ponto para o autor.

Porém, nem tudo são flores. Mons Kallentoft sofre do mal de deixar o bicho pegar de vez apenas no final do livro. Não é nenhum problema horrível e, nesse primeiro livro, ele não deixou a trama ficar maçante até chegar às últimas páginas, porém uns e outros podem ficar insatisfeitos com um livro que deixa o desfecho para o extremo final. As últimas 100 páginas são frenéticas, você passa voando, porém elas vão passando e passando e passando... até que você pensa que o livro vai acabar sem terminar, e quando você já está beirando à loucura de preocupação de um mau fim para um enredo tão bem feito, ele se termina, com chave de ouro. “Eu queria um pós-conclusão melhor”, “eu queria ter mais detalhes disso”, “eu queria entender melhor isso aqui”. Esses são pensamentos que vão passar em sua cabeça quando você fechar Sangue no Inverno, porém não estragam de forma alguma o livro em si. Só deixa um gostinho de “quero mais 20 páginas”.


Muito recomendado a leitura de Sangue no Inverno, pois é um livro diferente em vários sentidos. Conhecer a vida de Bengt e entender sua mente é obrigatório para qualquer um que goste de uma trama que faça se indignar com a geleira que todo ser humano pode guardar dentro de si.

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