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sábado, 19 de outubro de 2013

Ratos - Gordon Reece


Shelley e a mãe foram maltratadas a vida inteira. Elas têm consciência disso, mas não sabem reagir — são como ratos, estão sempre entocadas e coagidas. Shelley, vítima de um longo período de bullying que culminou em um violento atentado, não frequenta a escola. Esteve perto da morte, e as cicatrizes em seu rosto a lembram disso. Ainda se refazendo do ataque e se recuperando do humilhante divórcio dos pais, ela e a mãe vivem refugiadas em um chalé afastado da cidade. Confiantes de que o pesadelo acabou elas enfim se sentem confortáveis, entre livros, instrumentos musicais e canecas de chocolate quente junto à lareira. Mas, na noite em que Shelley completa dezesseis anos, um estranho invade a tranquilidade das duas e um sentimento é despertado na menina. Os acontecimentos que se seguem instauram o caos em tudo o que pensam e sentem em relação a elas mesmas e ao mundo que sempre as castigou. Até mesmo os ratos têm um limite.

Ratos (lançado em 2011 pela Intrínseca) é um livro narrado em primeira pessoa por Shelley Rivers, uma garota de 16 anos, que já passou por diversos maus bocados. Porém o pior deles ainda está por vir.
Shelley sempre foi uma criança gordinha, mas isso nunca havia sido um problema. Tinha três grandes melhores amigas, Teresa, Emma e Jane, que a fazia muito feliz. Tinha sua vida estruturada em uma família que a completava: seus pais viviam em um casamento invejável.
Assim como a vida real, passamos por fases serenas e felizes em nossas vidas, até que uma coisa comece a dar errado e então tudo dê. Coisas ruins costumam vir todas de uma vez.
A escola já não era mais tão agradável. Suas amigas estavam diferentes, e não era para melhor.

“Por volta dos catorze anos, elas começaram a mudar. E eu, não.”

As mudanças foram físicas e comportamentais. As garotas trocaram suas prioridades e, ao perceberem que Shelley se mantinha a mesma, iniciaram uma série de ações contra a pobre menina. O bullying, inicialmente verbal, alcança proporções devastadoras à Shelley, principalmente quando passa a ser físico. Simultaneamente a esses ataques, seus pais se divorciam, e então Shelley se vê perdida no mundo.

“Nossa aparência afeta nossa personalidade? Ou é nossa personalidade que afeta nossa aparência? Um gato sempre parece um gato? Um rato sempre parece um rato?”

Shelley e sua mãe eram como ratos. Elas sempre procuravam se manter afastadas de brigas, sendo totalmente coadjuvantes de suas próprias vidas. O pai de Shelley some no mundo. Depois do Bullying chegar a gota d’água, a ponto de mandar uma Shelley desacordada para o hospital, Elizabeth Rivers – a mãe – toma a atitude de ir morar com sua filha em um local afastado.
Lá, elas se sentem seguras e podem viver a vida insignificante que acham que estão fadadas a ter. Porém, na noite do 16° aniversário de Shelley, um homem invade a propriedade delas e a partir daí ratos e gatos se confundem.
A estória é muito impactante no início e muito bem escrita por Gordon Reece. Em poucas páginas o leitor já se encontra envolvido na trama, e indignado com o azar de Shelley e Elizabeth. É comovente. Os auges do enredo de Ratos são muito bem escritos. O final é morno, mas a leitura até lá vale a pena.
Ao pesquisar sobre outros livros desse autor lançados aqui no Brasil, não encontrei nenhum outro! É uma pena e acho muito difícil ser lançado ainda, pois Gordon Reece morreu há 12 anos e não tem nenhum outro título marcante que poderia interessar a Intrínseca, em minha opinião. Tive a grande surpresa de ver que esse autor britânico colaborou intensamente na ascensão de Margaret Thatcher ao poder, quando ela ainda era uma candidata. Depois disso, ele se tornou conselheiro dela e até aparece no filme “A Dama de Ferro”.
Finalizando, Ratos é um livro forte, considerado de Psicologia e Conduta, que deixa uma mensagem de uma garota que finalmente começa a se conhecer e ver que é ela quem escolhe se é rato ou gato, apenas ela e mais ninguém.


“Talvez aquilo que não conseguimos compartilhar com os outros seja o que realmente define quem somos.”

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Espíritos de Gelo - Raphael Draccon

Espíritos de Gelo é um livro do brasileiro Raphael Draccon, muito conhecido por sua trilogia Dragões de Éter. A intenção dele não era lançá-lo em seu nome, na verdade, escreveu Espíritos de Gelo para um projeto de uma editora de Portugal, no qual tinha a proposta de reunir mitos urbanos. A ideia era que jovens autores participassem. Eis que é chamado, então, Raphael Draccon.
Deu tão certo que ele foi lançado aqui no Brasil pela Editora LeYa, com mais de uma edição. Pode ser classificado como um livro, mas não é errado dizer que se trata de um conto ou uma lenda urbana, afinal possui apenas 170 páginas repicadas em muitos capítulos.
A trama começa com um homem acordando em uma banheira, sangrando e com muita dor, cercado por três outros caras que são narrados petulantemente pelo pobre refém, que salpica a narrativa em primeira pessoa com uma linguagem divertida para alguém que está sendo martirizado. São feitos diversos tipos de tortura até que ele descubra que, para que aquilo termine, ele deveria se lembrar como havia parado ali.
 - O fato é que você apareceu desmaiado, com um rasgo no abdômen, dentro de uma banheira de gelo... Nós precisamos que você se lembre do porquê.
A partir daí ele inicia uma alternância entre presente e passado em busca da razão que o trouxera àquelas circunstâncias.
O livro é bastante forte e pesado, com traços diferentes de sexo e violência pipocados com alguns palavrões, completamente diferente de Dragões de Éter ou Fios de Prata do mesmo autor. Porém é um diferente bom, pois mostra uma variedade de estilos e prova que Raphael Draccon tem potencial para ir além da fantasia infanto juvenil.

O início faz com que a leitura seja bem rápida por conta da curiosidade de saber as razões para aqueles acontecimentos, até que se chegue à metade e as coisas desacelerem um pouco. Apesar disso, o final é ótimo e nos faz pensar sobre até onde o ser humano é capaz de ir para mostrar superioridade aos outros. Limites físicos e psíquicos, indignação e vingança são alguns dos temas abordados em Espíritos de Gelo, um livro com o título justificadíssimo no desfecho do enredo e muito bem aplicado.

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