É o inverno mais frio dos últimos tempos. Perto de Linköping, no coração da Suécia, um homem é encontrado morto, pendurado numa árvore. O estado do corpo faz lembrar os rituais de uma antiga religião viking, em que, justamente nessa época do ano, se ofereciam animais e seres humanos aos deuses em troca de felicidade e bem-estar. Mas os tempos são outros. Terá sido mesmo uma oferenda ou tão somente um crime com requintes de crueldade?
Lá do alto, sob as estrelas do céu, uma voz se faz ouvir. A detetive Malin Fors é a única capaz de percebê-la; uma presença que acompanhará de perto seus esforços para reconstruir o crime. Com sua sensibilidade aguçada e o apoio de Zeke, seu parceiro nas investigações, Malin terá de buscar as pistas encobertas pela neve. Sua única certeza é de que o achado irá abalar a vida tranquila da cidade e trazer de volta terríveis segredos há muito escondidos...
Sangue no Inverno é um livro muito diferente dos romances policiais que leio. O autor sueco, Mons Kallentoft, dá voz ao morto de uma forma brilhante. O livro já se inicia com o assassinato de Bengt Andersson. Também chamado de Gandula, Bengt era extremamente sozinho no mundo e apresentava vestígios de insanidade mental, um sujeito digno de pena pela tristeza em abundância que sentia. A morte chega para ele de um jeito curioso, principalmente se tratando de uma cidade tranquila como Linköping, que desperta uma pulga atrás da orelha da polícia local: é enforcado em uma floresta, com alguns cortes pelo corpo, no auge do inverno.
O leitor é levado aos confins da alma de Bengt, que, logo após
morrer, já inicia seu discurso e sua reflexão sobre a vida que levou. Essas são
as partes mais valiosas do livro. É maravilhoso ouvir o que a vítima diz de
tudo aquilo. Ainda mais sendo o Bengt. A inocência, a tristeza e a paciência do
personagem fazem com que o leitor anseie para que a fonte do livro fique
itálica e que o Gandula assuma a narrativa. São flashes muito bons de ler e que
por serem menos frequentes do que a narração em terceira pessoa normal do
livro, costumam ser curtos. Porém, a vontade que dá é de reler umas 3 vezes o
pequeno trecho de Bengt, tentando desvendar os mistérios de sua vida que ele
deixa no ar, tentando juntar as pontas que ele levanta tão de leve.
É claro que doeu. É claro que tive medo. É claro que tentei fugir. Mas ainda assim, bem dentro de mim, eu sabia que já tinha vivido tudo; satisfeito não estava, mas cansado, cansado de me movimentar em círculos, em volta daquilo que me era negado, que eu, no entanto, lá bem no fundo, desejava ter, queria participar Os movimentos das pessoas. Jamais meus movimentos.
E então, a detetive Malin Fors assume o caso com uma equipe
muito eficiente. Seu parceiro, Zack, está presente em praticamente todas as
investigações que fazem, e, juntos, vão desvendando a trama.
Além de uma excelente detetive, Malin separou-se de Janne, o
ex-marido, e vive com a filha Tove, fruto do casamento conturbado entre as duas
figuras. A relação deles é respingada de amor e ódio.
É legal ver Malin representando bastante a força feminina
nos romances policiais, que costumam ser protagonizados por detetives homens. A
constante suspeita que Malin tem de todos os envolvidos e inteligência ajudam
muito a resolver o caso.
Todas essas pessoas que olham para o mundo através de pequenas brechas nas portas, de que elas têm medo?
Sangue no Inverno é o primeiro livro da “série Malin Fors”,
que percorre as 4 estações. Isso mesmo: Sangue no Inverno, Sangue no Verão,
Sangue no Outono e Sangue na Primavera. Assim, o autor é categórico ao detalhar
o clima e o ambiente ao redor de seus personagens. No Inverno, por se tratar da
Suécia, país bastante gelado, deu muito certo. As descrições da neve e do frio
que faz não ficam cansativas e colaboram com a frieza de personagens que vão
surgindo com as investigações. É uma combinação perfeita. Ponto para o autor.
Porém, nem tudo são flores. Mons Kallentoft sofre do mal de
deixar o bicho pegar de vez apenas no final do livro. Não é nenhum problema
horrível e, nesse primeiro livro, ele não deixou a trama ficar maçante até
chegar às últimas páginas, porém uns e outros podem ficar insatisfeitos com um
livro que deixa o desfecho para o extremo final. As últimas 100 páginas são
frenéticas, você passa voando, porém elas vão passando e passando e passando...
até que você pensa que o livro vai acabar sem terminar, e quando você já está
beirando à loucura de preocupação de um mau fim para um enredo tão bem feito,
ele se termina, com chave de ouro. “Eu queria um pós-conclusão melhor”, “eu
queria ter mais detalhes disso”, “eu queria entender melhor isso aqui”. Esses
são pensamentos que vão passar em sua cabeça quando você fechar Sangue no Inverno,
porém não estragam de forma alguma o livro em si. Só deixa um gostinho de “quero
mais 20 páginas”.
Muito recomendado a leitura de Sangue no Inverno, pois é um
livro diferente em vários sentidos. Conhecer a vida de Bengt e entender sua
mente é obrigatório para qualquer um que goste de uma trama que faça se
indignar com a geleira que todo ser humano pode guardar dentro de si.
